Compromisso com a dignidade humana e ênfase na interdisciplinaridade são os desafios da área
A Psicologia do Trabalho ainda está ligada à sua clássica relação com as empresas. Sua atuação ganhou novos horizontes, num segundo momento, quando foi estendida aos sindicatos, movimentos sociais e políticas públicas. Mas seu potencial evolutivo é maior do que isso. É necessário, no entanto, uma reformulação para que essa especialidade deixe de ser um campo historicamente marginalizado. Para o professor de graduação e pós-graduação da UNICAMP/FGV/USM, Roberto Heloani, o primeiro passo é evitar os experimentalismos irresponsáveis numa área que deveria estar focada em valorizar a dignidade humana. Segundo ele, não há espaço para primarismos, e sim para pesquisas sérias que considerem a dignidade humana como algo inegociável.
Roberto Heloani afirma que, embora tenha origem na indústria, a Psicologia do Trabalho, ao mesmo tempo em que precisa afastar a idéia primitiva de enquadrar o homem ao mundo da empresa, deve se colocar como interlocutora do indivíduo com o mundo, tratando da questão da subjetividade. A professora de graduação e pós-graduação em Psicologia do Instituto de Psicologia da USP, Leny Sato, observa que o rompimento da estrutura formal da Psicologia do Trabalho, como instrumento a serviço apenas da produtividade, encontrará, no entanto, obstáculos por conta da natureza dos processos organizativos.
“As primeiras pegadas da Psicologia do Trabalho fincaram marcas que expressam a demanda por respostas ao processo de industrialização no Brasil nos setores de gestão e nos processos organizacionais, vinculando a Psicologia às atividades de recursos humanos. A visão e as necessidades dos trabalhadores, dos sindicatos e dos movimentos sociais não tiveram espaço para se estruturar como voz demandante, e, por isso, parece que não havia outra ótica que conformasse a realidade do trabalho e a vida no interior das empresas, o que não é verdade”, afirma
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Leny Sato explica que no início da década de 80, com a volta dos movimentos sociais à cena pública, a Psicologia testemunhou o surgimento de demandas que buscavam na área um olhar que reconhecesse as necessidades dos trabalhadores, não só as necessidades corporativas das empresas. “Foi extremamente importante o campo que se configurou como Saúde do Trabalhador, no qual o Estado, por meio de políticas em saúde pública, também se apresentava mais fortemente. Abriu-se espaço importante para práticas e investigação na Psicologia”, contextualiza.
O cenário do momento é outro. Leny Sato destaca o desemprego, o mercado informal de trabalho e as cooperativas autogestionárias como fenômenos importantes que abriram novas possibilidades para a Psicologia do Trabalho nos dias de hoje. “A partir disso, temas como identidade e trabalho, táticas e estratégias de sobrevivência e os processos psicossociais que possibilitam a construção de relações autogestionárias têm sido objeto de investigação e que devem ser levadas em consideração nas atividades de intervenção dos profissionais”, avalia.
Roberto Heloani complementa, dizendo que a Psicologia do Trabalho precisa ser pensada como elemento histórico e cultural. “O grande desafio da área é se relacionar com outras disciplinas, com os outros campos do saber”, diz. A interface com outras áreas, de acordo com ele, é premente em virtude das rápidas mudanças pelas quais passam o próprio conhecimento, e é fundamental para sua sobrevivência como campo respeitável. Caso contrário, a Psicologia do Trabalho corre o risco de se restringir a alguns setores ou ser colocada de lado, descompromissada com a emancipação de sua origem serviçal e alienante. “Compete ao próprio psicólogo tomar o seu lugar na questão ética, deixar bem claro a que veio e o que pretende”, alerta.
Para Roberto Heloani, o psicólogo do trabalho deve se posicionar desde a formação - não pensar que sua atividade é neutra -, e que, apesar da relação capital e trabalho ser muito favorável ao capital, “ele tem a possibilidade de ser um ator significativo em todo esse teatro”. “Está na hora de o psicólogo assumir, efetivamente, um compromisso explícito com o ser humano e não com o capital. O que não quer dizer que ele não possa trabalhar em uma organização, ter uma visão mais ampla e lúcida de uma empresa. Mas ele n;ao pode deixar de se posicionar. Há pessoas que estão fazendo trabalhos maravilhosos na área, mas, devido a certa omissão, decorrente talvez de uma despolitização, o psicólogo (do trabalho) é associado ainda, em boa parte da América Latina, à pecha daquele que tende a ter uma postura discutível do ponto de vista ético, o que não corresponde à verdade”, esclarece. Para ele, as discussões nesse sentido estão crescendo.
Heloani analisa que há um movimento na formação do psicólogo do trabalho em direção à valorização da dignidade humana. Apesar disso, sente que ainda há avanços a conquistar em termos de currículo, como na questão dos estágios - um debate que, segundo ele, ocorre hoje não só no meio acadêmico, mas também em outras instâncias, como nos Conselhos Regionais de Psicologia e em seminários e congressos.
Nessas discussões, ele verificou que há um índice assustador de problemas relacionados à depressão. “Sabemos que existe uma relação muito forte entre estresse patológico e assédio moral, da ordem de 47%, que ocorre, geralmente, no trabalho. Há pessoas que, praticamente, estão prestes a ser internadas. Um longo processo de assédio moral é sinal de que você tem um trabalho doentio, indigno, desrespeitoso em relação ao ser humano, que trata o colega não como sujeito, mas como instrumento. Eu acho que a Psicologia do Trabalho tem, pode e deve interferir nessa questão”, acredita.
Fonte:Conselho Regional de Psicologia SP
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